A Graça é a resposta para a nossa insuficiência

O mundo como está configurado atualmente nos faz experimentar sentimentos e sensações muito semelhantes. Quem não sofre de ansiedade? Quem não se vê diante do risco eminente de entrar em depressão?

Outra marca da vida atual é o que alguns teóricos chamam de insuficiência. Somos insuficientes, pois não damos conta de digerir a quantidade de informação que nos é transmitida diariamente por diversos meio de comunicação. Não conseguimos ler todos os livros que gostaríamos e muito menos assistir a todos os filmes e séries da nossa lista infinita de vontades. A verdade é que sofremos com isso. Nos frustramos, nos entristecemos, nos culpamos, nos punimos. É realmente difícil.

Mas será que o evangelho de Jesus tem alguma resposta para isso?

Afirmo categoricamente que sim.

Hoje estava me sentido assim, como descrevi acima. Logo, veio a minha mente a frase que Paulo ouviu do Senhor: A minha graça te basta… A frase entrou como um punhal dentro de mim, então, pus-me a refletir sobre todo esse cenário…

Lutamos para sermos perfeitos, para termos tudo o que desejamos, para sabermos de tudo que achamos que devemos saber. Na verdade, quando fazemos isso, estamos, ainda que inconscientemente, manifestando o desejo de ser como Deus. Somente Deus é onipresente, onipotente e onisciente. Nós somos humanos, falhos, limitados e imperfeitos.

Mas como é difícil lidar com isso! Estamos inseridos num contexto sócio histórico que nos diz, direta ou indiretamente, que somos ou devemos ser infalíveis, invencíveis, imortais, intocáveis, especiais, centro do universo, que merecemos tudo. A própria pregação cristã tem se voltado para esse mote, visa afagar egos, dizer o que as pessoas querem ouvir, que vão enriquecer, que serão felizes para sempre, que jamais poderão adoecer ou viver momentos amargos…

E na real é isso mesmo: queremos ser deuses. Queremos reinar soberanamente sobre tudo. O nosso desejo de onipotência (ter todo o poder), onisciência (saber de tudo) e onipresença (estar em todo lugar e ter o controle sobre tudo: pessoas, natureza, coisas, tempo) se traduz em ter poder, ter riquezas, ter sucesso, poder controlar tudo, poder dominar tudo, poder alterar tudo, poder transformar tudo a fim de que nada saia do jeito que não queremos.

Precisamos voltar onde tudo começou, segundo o relato bíblico, para melhor compreender esse desejo fundador do homem: o desejo de ser como Deus. Para a psicanálise freudiana, nas palavras de Rubem Alves, desejo aponta para aquilo que eu não tenho. Portanto, só é possível desejar o que não tenho e o que/quem não sou. Nesse sentido, o relato bíblico mostra exatamente isso, a incitação do desejo pela serpente e o impulso primitivo do homem/mulher.

Como já disse Leonardo Boff, “todo menino quer ser homem; todo homem quer ser rei; todo rei quer ser Deus; só Deus quis ser menino”. Essa é a beleza do evangelho. Jesus fez o caminho inverso.

Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’? ” Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ “. Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão! Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”. Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.

(Gênesis 3:1-6)

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.

(Filipenses 2:5-8)

Viajando de Gênesis até o Novo Testamento nos vemos diante de uma encruzilhada. Lei ou Graça. Qual caminho seguir?

O caminho da lei é o caminho da busca incessante pela perfeição, o caminho de querer ser como Deus, se bastar, por si mesmo cumprir toda a lei. Esse caminho é como uma rua sem saída, pois não te leva a lugar algum. A lei é a prova de que nenhum homem pode ser perfeito, pode ser santo por si só, pode ser capaz de se justificar, e por fim, pode ser como Deus. A lei prova o nosso fracasso, a nossa falência, a nossa a falibilidade, em suma, a nossa INSUFICIÊNCIA. Simplesmente somos incapazes.

Porquanto, quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas uma das suas ordenanças, torna-se culpado de quebrá-la integralmente.

(Tiago 2:10)

A graça é a resposta de Deus para a nossa insuficiência. A graça é o caminho do evangelho, o caminho da cruz, o caminho da redenção.

E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte.

(2 Coríntios 12:7-10)

O poder de Deus se aperfeiçoa na nossa fraqueza. Toda a nossa força, habilidade e capacidade, inviabiliza o poder de Deus em nossas vidas se não estiverem subordinadas ao amor. O apóstolo Paulo experimentou isso. Nós também deveríamos experimentar. Nossa fraqueza é a oportunidade de vermos o poder Deus operar.

É por isso que o evangelho de Jesus supera a religião em seu sentido estrito. Qualquer proposta religiosa fala de como o homem deve buscar a Deus. O evangelho de Jesus é Deus buscando o homem. Jesus veio nos dizer o seguinte: Você são humanos e devem continuar sendo humanos. Essa é a minha vontade e a vontade de meu PAI.

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. (1 Timóteo 2:5)

A humanidade de Jesus é ressaltada com riqueza de detalhes nas narrativas dos evangelhos. Jesus não curava e nem fazia milagres para se promover ou buscar a glória dos homens, mas porque se compadecia do sofrimento das pessoas. Veja:

E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores. (Lucas 7:13)

Tenho compaixão da multidão, porque há já três dias que estão comigo, e não têm o que comer. (Marcos 8:2)

ACEITAR-SE HUMANO É DIFÍCIL. O humano é inconstante, impreciso, indefinido, temporal, finito, indeterminado, singular, complexo, se transforma, é capaz de fazer o bem e fazer o mal, trata-se de um ser de difícil compreensão. Porém, segundo o evangelho de Jesus, quanto mais humano mais divino.

Aceite a sua imperfeição e insuficiência, pois a graça te basta. É a graça que te torna digno, santo, filho, merecedor, capaz, forte e etc. Abandone-se na rica e abundante graça de Deus.

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

(Efésios 2:8-10)

Em amor,

Allan Felipe

Rio de Janeiro, 02 de maio de 2020.

Covid-19, Fé, Teologia e Existência

“O que é impossível para os homens é possível para Deus.” (Lucas 18.27)

A intervenção divina é uma exceção à regra naquilo que diz respeito ao campo da possibilidade humana. No entanto, quando trata-se da impossibilidade humana, a especialidade divina entra em ação, tornar o impossível em possível, segundo Sua Soberania.

Em outras palavras, na maioria das vezes em que Deus intervém em nossas vidas é para desfazer a besteira que fizemos e não para lidar com problemas de impossível resolução para os humanos. Em suma, o que é da esfera do possível é minha responsabilidade, o que é da esfera do impossível é da alçada do Altíssimo. Mas, isso não significa que Deus está impedido de agir em alguma das situações.

Temos aqui, do ponto de vista teológico, a mais difícil das equações: equilibrar a soberania divina com a responsabilidade humana.

Diante do cenário atual, é humanamente impossível se blindar contra o vírus, mesmo tomando todos os cuidados e seguindo as recomendações da OMS, que devem ser observados e cumpridos por todos e todas. Estamos falando de um vírus invisível, de dimensões mínimas e de fácil multiplicação. Nesse sentido, muita coisa escapa do nosso controle, somos seres limitados e precisamos urgentemente assumir nossa porção de impotência enquanto sujeitos.

Recorramos ao Salmo a fim de revigorarmos nossas forças e alimentarmos nossas almas famintas por esperança:

“Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.” (Salmos 127.1-2)

Prosseguindo a reflexão. Vivemos dias difíceis, e, infelizmente, temos a tendência de nos desesperar, tal como definiu o importante filósofo dinamarquês, Sören Kierkegaard. O desespero humano, para Kierkegaard, consiste em aferrar-se a um dos polos da síntese e desprezar o seu oposto: finitude x infinitude, eternidade x temporalidade, liberdade x necessidade.

Aplicando a mesma dialética ao atual contexto, corremos o risco de nos desesperar pelo excesso de espiritualidade/esperança e carência de realidade, pelo excesso de misticismo/religiosidade e carência de práxis e pelo excesso de fé/crença no divino/transcendente e carência de responsabilidade humana. Da mesma maneira, o contrário também é desespero: excesso de realidade e carência de espiritualidade/esperança, excesso de práxis e carência de misticismo/religiosidade e excesso de responsabilidade humana e carência de fé/crença no divino/transcendente.

Como psicólogo, costumo dizer que equilíbrio é saúde. Portanto, é preciso encontrar uma terceira via para lidar com essa dinâmica dualista. Com relação à pandemia originada pelo COVID-19, é preciso ter em mente que: a fé não me furta de tomar os devidos cuidados preventivos e nem os cuidados preventivos anula a minha fé. Como disse um colega teólogo, a fé não nos imuniza, mas nos responsabiliza. Há uma dimensão ética em ser cristão, isto implica necessariamente numa vida solidária, de amor, de dedicação e cuidado para com o próximo.

Estamos vivendo um momento no qual a nossa sobrevivência depende da capacidade humana de superar o egoísmo e o individualismo e, assim, colocarmos a espécie humana em outro patamar da existência. Patamar esse, que não nos torna “separados” da natureza e das outras espécies. Esse senso de exclusividade diante do universo precisa dar lugar a um novo paradigma.

Não estamos aqui para depredar, sugar até a última gota de petróleo, devastar, desmatar, poluir, dizimar, extinguir, explorar, dominar iguais, oprimir, mas para cuidar, preservar, amar, respeitar, conviver, aproveitar, usufruir de tudo o que esse planeta pode nos oferecer, entretanto, em harmonia, ou, evidentemente, na busca por harmonia.

Que essa crise mundial nos faça repensar os rumos da humanidade, a maneira como temos vivido e nos relacionado com toda espécie de vida, especialmente a homo sapiens sapiens.

Paz e bem a todos e todas!

Em amor,

Allan Felipe.

Rio, 18/03/2020

Confesso, estou exausto…

Estou exausto…
Exaustão é algo que não deveria fazer parte da vida de um jovem como eu. Aos 27 anos no auge da minha energia me pego exaurido pela igreja, pela teologia e por mim mesmo.
A mesma igreja que me formou como sou, me ensinou a ama-la, me ensinou a amar o outro de forma humanamente divina se deformou, virou um ninho de usurpadores que me deixam exausto.

Estou exausto dos cultos lotados de gente vazia, vazias por serem cheias de si.

Estou exausto de uma igreja que virou terreno fértil de discursos odiosos, de exclusão, de violência.

Estou exausto de explicar o óbvio, de ter que desenhar elementos básicos da fé cristã, de ter que apresentar características do Cristo que qualquer um que O conheça minimamente deveria carregar em si.

Estou exausto de ouvir justificativas bíblicas pra morte em nome daquEle que é a Vida.

Estou exausto de uma teologia comprometida com os feitos do passado e não com a necessidade de se comprometer com novos feitos que transformem a sociedade que vivemos.

Estou exausto de ver o Cristo ser desprezado pela igreja, de ser rejeitado por ela em cada faminto, em cada gay, em cada mulher violentada.

Estou exausto de mim nisso tudo, que erro e vacilo diariamente, sendo eu mesmo barreira pra mensagem que prego.

Estou exausto do Ismael que por vezes é a imagem e semelhança dessa igreja, hipócrita, perverso e endurecido, “miserável homem que sou”.

Estou exausto de pastorear os impastoreáveis e não ser pastoreado por ninguém, talvez seja eu tb um impastoreável.

Estou exausto dessa religião que sacrifica o outro e nunca a mim, uma vez que o Cristo nos ensinou a sacrificar a nós mesmos em amor e favor do outro.

Estou exausto e sigo como Ariovaldo Ramos não querendo ser evangélico, sigo cansado como o Gondim e de tanto achar tudo isso insuportável como o Caio cheguei onde estou exausto…

Estou exausto, mas não serei consumido por essa exaustão, não desistirei da igreja e não desistirei de mim.

Estou exausto, mas não serei um desistente da caminhada, não abandonarei a mim mesmo no caminho, serei eu cada vez mais parecido com o Cristo que sigo e em comunhão com meus irmãos aperfeiçoaremos o Corpo desse Cristo até a estatura de varão perfeito.

Estou exausto, mas continuarei exaustivamente acreditando na igreja, mesmo que ela não acredite em mim…

Autor: Ismael Lopes (parceiro e colaborador do aosdesigrejados.com)

Texto original publicado no Facebook do autor no ano de 2017.

Sugestão de Leitura #01

Nossa primeira sugestão de leitura é a obra de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. O best-seller: Por que você não quer mais ir à igreja. Um livro muito importante para quem está desmotivado com o sistema. Entenda quais são as reais razões para você não querer mais frequentar a sua igreja. Uma leitura terapêutica, assertiva e que te levará a desconstrução de alguns fundamento alicerçados sobre bases equivocadas. Recomendamos fortemente esse livro aos nossos leitores.

Equipe aosdesigrejados.com

Ivan Saraiva fala sobre os “desigrejados”

Ivan Saraiva, pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, comenta sobre os “desigrejados”. Preste atenção nas palavras que ele diz:

*OBS: Apesar da chamada no YouTube dizer que Ivan Saraiva deixou a Igreja Adventista, não temos essa informação. Temos um compromisso com a verdade. De maneira nenhuma queremos ser veículo de propagação de notícias falsas.

O que é a Igreja?

A Igreja de Jesus seria constituída por bancos enfileirados, púlpito, pastor, diácono, microfone, ministério infantil, grupo de louvor?

Igreja seria sinônimo de templo, quatro paredes, instituição, denominação, placa, altar, cobertura espiritual?

Tem muita gente que confunde o que é Igreja. Biblicamente Igreja é gente de carne e osso, sou eu, é você, somos nós.

Igreja é movimento e não inércia, não está fixada aqui ou acolá, não tem CEP, CNPJ e gerentes. Igreja é o ajuntamento dos santos seja onde for, quando for, sem mediação de sacerdotes.

Igreja é vida, liberdade, voltada e chamada para fora. Igreja é encontro, não importa se com dois ou três, o que importa é o nome que os motiva a congregar.

Igreja é mais do que te contaram e, segundo o evangelho de Cristo, em muito se difere do que dizem por aí.

O próprio Jesus disse que Ele é maior que o templo, que o templo que levou décadas para ser construído seria derrubado e reconstruído em 3 dias.

Sabemos que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas por que muitos insistem em acreditar que Ele habita entre quatro paredes?

O que Jesus chama de Igreja é muito diferente do que os cristãos da atualidade pensam que ela seja.

Igreja é…

Igreja é o espaço dos que querem estar juntos
É o ambiente dos que decidem se irmanar
Não para cumprirem uma obrigação religiosa,
Mas para abrirem o coração e construir uma amizade no amor.

Igreja é a intimidade dos que oferecem o que têm para o bem do outro
É o lugar onde a verdade não é usada pra matar, mas para curar
É uma congregação de gente que quer Jesus mais do que quer dinheiro
Que não carrega segundas intenções e está disposta a dialogar

Igreja não é monólogo autoritarista, não é um clero lidando com leigos
É gente atingida pelo amor de Deus aprendendo a caminhar juntas
Errando e acertando, confrontando e sendo confrontada
Perguntando e sendo perguntada, com amor e muito respeito

Igreja é abrigo de necessitados
Cobertor dos que tremem de frio
Aconchego dos abandonados
Dignidade dos humilhados
Casa humanizadora dos marginalizados

Na Igreja o pão é repartido, a oração é por causas mútuas
A canção exprime  um desejo em comum
De desenvolver a salvação com temor e tremor
Olhando pra Jesus, o autor e consumador da fé

Rodrigo Campos
Um Caminhante Aprendiz

Fonte: http://www.caminhanteaprendiz.com.br

A igreja se tornou ‘uma instituição social que por acaso é religiosa’, afirma reverenda norte-americana


Reportagem: Cecília Olliveira
24 de Dezembro de 2019.


UM NÚMERO SIGNIFICATIVO de americanos se dizem “espiritualizados, mas não religiosos”, segundo um estudo recente do Pew Research Center, um dos mais importantes centros de pesquisa dos EUA. Quatro em cada dez pessoas com idade entre 30 e 49 anos se definem assim. Apesar de não termos uma pesquisa equivalente no Brasil, por aqui também é possível observar um crescimento no número de ‘desigrejados’, pessoas que deixam de frequentar esse tipo de instituição – em grande parte, pela diferença entre o que é pregado e a realidade concreta de suas vidas.

Para entender essa situação – e o papel das lideranças religiosas no Brasil, onde 40% dos evangélicos votaram em um católico que se batizou no Rio Jordão e usa kipá–, conversei em Nova York com a decana da principal universidade de Teologia dos EUA. No entendimento da reverenda Kelly Brown Douglas, embora cada um tenha seus motivos para ir à igreja – ou sair dela –, o fato de muitos religiosos se aliarem a pessoas que defendem ideias claramente opostas às suas crenças e interpretações da Bíblia faz a igreja se tornar uma “instituição social que por acaso é religiosa”.

“‘Ser igreja’ não é tentar proteger uma instituição religiosa, é um movimento no mundo em direção ao que gosto de chamar de ‘uma terra de justiça’”, afirma Brown Douglas. A reverenda lembra a luta de Martin Luther King pelos direitos civis dos negros nos anos 1950 e diz que o risco das congregações optarem por permanecerem caladas frente aos absurdos perpetrados por governantes como Trump e Bolsonaro, em especial contra os mais pobres, é serem relegadas à irrelevância. Se a igreja não lutar, “não encontrando consolo até que haja justiça para todos”, diz ela, “eu me juntarei às pessoas que estão indo embora. Elas são críticas, e precisamos estar onde elas estão.”

Confira os principais trechos da entrevista.

Decana da principal universidade de Teologia dos EUA, Brown Douglas diz que o risco das congregações optarem por permanecerem caladas frente aos absurdos perpetrados por governantes como Trump e Bolsonaro é serem relegadas à irrelevância

Nos EUA – e também no Brasil–, tem crescido o número de pessoas que estão abandonando ou mudando de igreja. O que leva a esse movimento?

Kelly Brown Douglas – O que vejo nesse crescente grupo de pessoas que se dizem “espiritualizadas, mas não religiosas” é que não é que elas não tenham uma conexão com algo maior, que muitos de nós chamamos de Deus, ou que não tenham um senso de fé, como se queira definir. A questão é que elas perderam a confiança ou a fé na religião institucionalizada, nas igrejas e em outras instituições religiosas, que elas não consideram sensíveis às suas necessidades, questões e dificuldades, à vida terrena como ela é.

Jesus foi crucificado por afrontar poder político e religioso. Assim, esse afastamento da religião não é um afastamento da espiritualidade ou das religiões, é um afastamento das instituições religiosas, das igrejas. E isso é um chamado para que as igrejas, como costumo dizer, “sejam igreja”. “Ser igreja” não é tentar proteger uma instituição religiosa, é um movimento no mundo em direção ao que gosto de chamar de “uma terra de justiça”, ou na direção de onde Deus nos chama a uma forma mais justa de viver. Na medida em que as igrejas se preocupam em proteger um prédio ou uma instituição, elas perdem o que as caracteriza e se transformam em uma instituição social que por acaso é religiosa.

Algumas vezes você vê outras pessoas que foram alienadas pela igreja. Isso precisa compelir a igreja a fazer uma autocrítica. Não é culpa delas [das pessoas] que não estejam na igreja, é nossa culpa que a igreja não esteja onde elas estão. A pergunta, portanto, não é o que há de errado com elas, é o que há de errado conosco. É uma resposta bem longa à sua pergunta, mas penso que o movimento de pessoas abandonando a igreja é um reflexo de onde não temos chegado como igreja. E acho que a pergunta deveria ser “onde Jesus estaria?”. Jesus estaria com elas, porque essas pessoas estão lutando por um futuro mais justo.

Esse tipo de êxodo é uma novidade? Qual é o papel da igreja diante de problemas e questões sociais?

Nunca houve um tempo em que não existisse testemunho do que significa ser igreja, setores da comunidade de fé que testemunhassem isso. Então, por exemplo, durante o período da escravidão aqui nos EUA, havia a igreja negra. E a igreja negra, no que ela tem de melhor, sempre esteve engajada em atividades de justiça social e na luta pela justiça social. Não necessariamente em todas as situações, mas fez isso em seus melhores momentos. E mostrou o que tem de melhor sob a liderança, mais contemporaneamente, de Martin Luther King Jr.

Ainda assim, havia um outro lado da comunidade de fé, inclusive da comunidade negra, que dizia a King: “Olha, você não deveria se envolver em questões controversas de justiça social, você só deveria estar preocupado com a salvação das almas”. Então, sempre existiu essa tensão sobre o que significa ser igreja, viver a própria fé.

Como é a relação entre política e igreja?

Quando estamos falando de cristãos e da tradição cristã, estamos tratando de uma religião cujo símbolo central é a cruz e um Jesus crucificado. E nós sabemos o que isso significa: Jesus não terminou na cruz porque rezava demais. Foi porque ele rezava que ele pôde ir para a cruz, isto é, ao ir para a cruz ele se identificou de forma clara com as “classes crucificadas”: os pobres, o andar de baixo do andar de baixo, em sua luta pela liberdade, pela vida, pela humanidade – a humanidade deles. Ele representava um movimento contra qualquer coisa que negasse a humanidade sagrada de alguém, e que pudesse estar no caminho do futuro justo que Deus prometeu a todos. Obviamente, então, ele terminou na cruz por ser uma afronta a ambos, não apenas ao poder político, mas também ao poder eclesiástico, religioso. Assim, na medida em que a igreja é igreja ao se reunir em solidariedade às classes crucificadas que se encontram onde Jesus estava, carregando as cruzes, como dizia Martin Luther King, ela traiu seu chamado a ser igreja. E então outras vozes precisam criticar isso: vozes teológicas, outras vozes da fé, seja quem for.

Como você enxerga esse movimento, que claramente é uma questão de raça? E essas pessoas que agora estão colocando o limite de que as vidas negras importam, mas não veem seus pastores se insurgindo contra a violência policial?

Bem, acho que outros líderes da fé precisam tomar a frente e mudar essa narrativa. E acho que isso está começando a acontecer, porque estamos em um momento urgente nos EUA, com Trump, seu agir político, suas políticas, sua visão… Ele representa um lado obscuro desse país. E é uma verdade trágica que, de fato, está no nosso DNA. Os EUA foram fundados como uma nação para proteger o excepcionalismo anglo-saxão. Essa nação foi fundada para ser a “cidade no alto da colina”, refletir o melhor dos valores anglo-saxões, e a cultura do supremacismo branco veio à tona para proteger isso. É disso que se trata o “Make America Great Again” [Torne a América Grande Novamente, slogan de campanha de Trump]. Tornar a América Branca Novamente, proteger sua herança anglo-saxã, mesmo que seja apenas uma herança mitológica. Por outro lado, os EUA também foram movidos pelo discurso democrata sobre uma terra onde há liberdade e justiça para todos. Então agora esse país tem, citando W.E.B. Du Bois, “duas almas” em guerra. Quem seremos? Essa nação que é a favor e reflete a noção de superioridade e excepcionalismo anglo-saxão, uma nação branca, ou não? Ou viveremos nessa visão democrática de nação?

O que isso significa?

Esse país vem sendo chacoalhado entre esses dois lados sem tomar uma decisão. E é por isso que você vê reemergir esse sentimento Trump. Mas aí vem o que, para mim, é ainda mais perigoso no Trump. As políticas e ideologias de supremacismo branco, o tratamento dado aos imigrantes, nada disso é novo nesta nação, tudo já aconteceu antes. E a nação resistiu e disse “não é isso que queremos ser”. Mas a nação já foi isso e precisa acertar as contas com esse passado. Trump também reflete uma política fascista, e isso é muito perigoso. Ele não está apenas se insurgindo contra a realidade multicultural deste país – ele está se insurgindo contra a democracia. E é isso que provavelmente vai acabar movendo as pessoas brancas, a América branca. Parece que ele pergunta o tempo todo: “Qual vai ser a gota d’água?”. Esse homem, essa história de “Make America Great Again” da campanha… a maior parte dos negros desse país respondeu a isso instintivamente e sabia do que ele estava falando. Ele deixou claro durante a campanha o que estava dizendo. Ele desumanizou imigrantes, chamou mexicanos de estupradores e criminosos e disse que as comunidades negras eram “conclaves de criminalidade”.

Sempre se pode usar a Bíblia para legitimar o que se quiser.

E qual o significado disso para a igreja? Como fiéis negros veem seus líderes apoiando esse discurso que os fere?

Acho que o que está acontecendo agora é que vemos essa América branca dizendo que o que Trump chama de “senso de protecionismo” não diz respeito apenas às pessoas não brancas e a seus corpos negros e pardos. Não é apenas um ataque sobre esses corpos – é também, mas é um ataque fascista, e por isso é um ataque à nossa democracia, por isso é um ataque a todas as nossas liberdades. E agora a igreja, de forma mais ampla – e com isso eu incluo a igreja “branca” –, a comunidade de fé agora está ainda mais suscetível a esse momento. E tenho esperança de que veremos vozes maiores na comunidade de fé tomarem a frente disso, tomarem a liderança e resistirem. E é claro: nós, negros, como vamos permanecer nas igrejas que apoiam isso? Como chegamos lá, para começar, eu não sei, mas como vamos permanecer quando se torna tão claro – se já não estava antes – o que está acontecendo agora? Eles foram longe demais e, para mim, já tinha ido há muito tempo, mas isso ofende a moralidade de qualquer pessoa. Por isso acho que você vai ver, já está vendo, mais pessoas resistindo a isso.

Talvez ele já tenha passado do limite.

Ele passou do limite, e eu acho que, para os cristãos, a gota d’água foi quando o Procurador-Geral citou a Bíblia para defender a política de Trump de separar famílias de imigrantes.

Eu vi isso e não conseguia acreditar, mas ele tem apoiadores no Brasil. Apoiadores brancos. E os mesmos pastores estão usando a mesma passagem.

Sim, porque aquela passagem sempre foi usada, é a mesma passagem que foi usada para justificar a escravidão. E, veja, sempre se pode usar a Bíblia para legitimar o que se quiser legitimar – a Bíblia muitas vezes foi usada para legitimar a opressão do povo. Mas isso vai contra a noção de um Deus que é amor e justiça. Qualquer uso do testemunho bíblico para desumanizar e oprimir outras pessoas é um mau uso. Usar a Bíblia para aterrorizar é um mau uso. Mas as pessoas sempre fizeram isso e vão continuar a fazer. E, ao mesmo tempo, sempre houve outras pessoas que conseguiram resistir e dizer não.

Qual o lugar da igreja nestes tempos?

Esta é a oportunidade de, como já falamos, a igreja ser igreja. James H. Cone, que faleceu recentemente, dizia que haveria um momento em que seria preciso decidir: se a igreja não for tomar a frente, se a cristandade não permitir nem apoiar a luta dos negros pela liberdade, então, vejam só: ele não poderia ser cristão. Ele faria uma escolha entre ser negro e ser cristão. Não é um problema para mim que as pessoas deixem a igreja quando ela não estiver sendo igreja. E se a igreja não entrar na batalha e assumir a responsabilidade de liderança para levar este país a outro ponto, criticando o que está acontecendo e se movendo, lutando por justiça, não encontrando consolo até que haja justiça para todos. Se a igreja não fizer isso, continuar quieta, permanecer ao largo, então eu me juntarei às pessoas que estão indo embora. Elas são críticas, e precisamos estar onde elas estão.

E por que alguns pastores continuam a ignorar as questões sociais e mesmo assim essas igrejas continuam a crescer? Temos esse tipo de movimento no Brasil. Você começa com uma igreja pequena e então alguma coisa acontece e ela fica enorme, com milhares de pessoas.

Um dos movimentos que mais crescem é esse tipo de movimento evangélico carismático pentecostal. E acho que uma das explicações é a necessidade que as pessoas sentem de ter um senso de segurança, um senso de estabilidade, e isso se relaciona às suas dificuldades existenciais pessoais e a todo esse tipo de coisa. Isso dá às pessoas um senso de esperança e, de alguma forma, oferece respostas fáceis às questões complexas da vida. E é o que esse movimento faz, não é? Não é surpreendente. E aí você se pergunta: em sua maioria, quem são as pessoas que gravitam em direção a esse tipo de igreja? Em geral, são as pessoas desfavorecidas. São as classes mais oprimidas.
Sim. Temos várias igrejas pequenas em favelas e regiões pobres, e elas são muito parecidas. É o único vínculo que você consegue ter, o único apoio que tem.
É isso.

Agora temos um prefeito evangélico no Rio, porque ele está usando sua base, suas igrejas, para conseguir votos. Estamos vendo isso em várias cidades e estados. E estamos discutindo isso agora, porque eles têm um plano de poder de chegar à presidência – o que, de certa forma, fizeram. Vocês têm esse tipo de uso da religião para obter poder político?

Bem, você sabe, existe uma “separação entre igreja e estado” aqui, mas…

Nós de certa forma temos.

Sim, claro. Quero dizer… Sim. De formas mais sutis, sim. E é isso que você vê, quer dizer, Trump tem apelo para um certo segmento da comunidade evangélica, que é a base de poder dele. Ele segue falando para ela, e é por isso que diz coisas como “Coloque o Natal de volta em Feliz Natal” [nos EUA, as pessoas usam “Boas Festas”, de forma genérica]. Ele está apelando para sua base de poder evangélica. Então sim, ele sabe exatamente o que está fazendo, e é isso que ele está fazendo. Ou quando fala de algumas pessoas: “se você não é patriota, você não é cristão”, ou “se você não é cristão, você não é patriota”. É a isso que ele está apelando. Está apelando a uma base de poder evangélica, o que também é uma afronta, um insulto a quem somos como país, e ao que significa ser cristão, também. Então sim, sim, as pessoas sempre fizeram isso, e é exatamente o que ele está fazendo.

FONTE: https://theintercept.com/brasil/

Pinte somente a igreja

O evangelho é muito simples. Mais didático do que isso… impossível.

“Então disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mateus 19:14)

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. (Atos 17:24)