A Graça é a resposta para a nossa insuficiência

O mundo como está configurado atualmente nos faz experimentar sentimentos e sensações muito semelhantes. Quem não sofre de ansiedade? Quem não se vê diante do risco eminente de entrar em depressão?

Outra marca da vida atual é o que alguns teóricos chamam de insuficiência. Somos insuficientes, pois não damos conta de digerir a quantidade de informação que nos é transmitida diariamente por diversos meio de comunicação. Não conseguimos ler todos os livros que gostaríamos e muito menos assistir a todos os filmes e séries da nossa lista infinita de vontades. A verdade é que sofremos com isso. Nos frustramos, nos entristecemos, nos culpamos, nos punimos. É realmente difícil.

Mas será que o evangelho de Jesus tem alguma resposta para isso?

Afirmo categoricamente que sim.

Hoje estava me sentido assim, como descrevi acima. Logo, veio a minha mente a frase que Paulo ouviu do Senhor: A minha graça te basta… A frase entrou como um punhal dentro de mim, então, pus-me a refletir sobre todo esse cenário…

Lutamos para sermos perfeitos, para termos tudo o que desejamos, para sabermos de tudo que achamos que devemos saber. Na verdade, quando fazemos isso, estamos, ainda que inconscientemente, manifestando o desejo de ser como Deus. Somente Deus é onipresente, onipotente e onisciente. Nós somos humanos, falhos, limitados e imperfeitos.

Mas como é difícil lidar com isso! Estamos inseridos num contexto sócio histórico que nos diz, direta ou indiretamente, que somos ou devemos ser infalíveis, invencíveis, imortais, intocáveis, especiais, centro do universo, que merecemos tudo. A própria pregação cristã tem se voltado para esse mote, visa afagar egos, dizer o que as pessoas querem ouvir, que vão enriquecer, que serão felizes para sempre, que jamais poderão adoecer ou viver momentos amargos…

E na real é isso mesmo: queremos ser deuses. Queremos reinar soberanamente sobre tudo. O nosso desejo de onipotência (ter todo o poder), onisciência (saber de tudo) e onipresença (estar em todo lugar e ter o controle sobre tudo: pessoas, natureza, coisas, tempo) se traduz em ter poder, ter riquezas, ter sucesso, poder controlar tudo, poder dominar tudo, poder alterar tudo, poder transformar tudo a fim de que nada saia do jeito que não queremos.

Precisamos voltar onde tudo começou, segundo o relato bíblico, para melhor compreender esse desejo fundador do homem: o desejo de ser como Deus. Para a psicanálise freudiana, nas palavras de Rubem Alves, desejo aponta para aquilo que eu não tenho. Portanto, só é possível desejar o que não tenho e o que/quem não sou. Nesse sentido, o relato bíblico mostra exatamente isso, a incitação do desejo pela serpente e o impulso primitivo do homem/mulher.

Como já disse Leonardo Boff, “todo menino quer ser homem; todo homem quer ser rei; todo rei quer ser Deus; só Deus quis ser menino”. Essa é a beleza do evangelho. Jesus fez o caminho inverso.

Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’? ” Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ “. Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão! Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”. Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.

(Gênesis 3:1-6)

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.

(Filipenses 2:5-8)

Viajando de Gênesis até o Novo Testamento nos vemos diante de uma encruzilhada. Lei ou Graça. Qual caminho seguir?

O caminho da lei é o caminho da busca incessante pela perfeição, o caminho de querer ser como Deus, se bastar, por si mesmo cumprir toda a lei. Esse caminho é como uma rua sem saída, pois não te leva a lugar algum. A lei é a prova de que nenhum homem pode ser perfeito, pode ser santo por si só, pode ser capaz de se justificar, e por fim, pode ser como Deus. A lei prova o nosso fracasso, a nossa falência, a nossa a falibilidade, em suma, a nossa INSUFICIÊNCIA. Simplesmente somos incapazes.

Porquanto, quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas uma das suas ordenanças, torna-se culpado de quebrá-la integralmente.

(Tiago 2:10)

A graça é a resposta de Deus para a nossa insuficiência. A graça é o caminho do evangelho, o caminho da cruz, o caminho da redenção.

E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte.

(2 Coríntios 12:7-10)

O poder de Deus se aperfeiçoa na nossa fraqueza. Toda a nossa força, habilidade e capacidade, inviabiliza o poder de Deus em nossas vidas se não estiverem subordinadas ao amor. O apóstolo Paulo experimentou isso. Nós também deveríamos experimentar. Nossa fraqueza é a oportunidade de vermos o poder Deus operar.

É por isso que o evangelho de Jesus supera a religião em seu sentido estrito. Qualquer proposta religiosa fala de como o homem deve buscar a Deus. O evangelho de Jesus é Deus buscando o homem. Jesus veio nos dizer o seguinte: Você são humanos e devem continuar sendo humanos. Essa é a minha vontade e a vontade de meu PAI.

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. (1 Timóteo 2:5)

A humanidade de Jesus é ressaltada com riqueza de detalhes nas narrativas dos evangelhos. Jesus não curava e nem fazia milagres para se promover ou buscar a glória dos homens, mas porque se compadecia do sofrimento das pessoas. Veja:

E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores. (Lucas 7:13)

Tenho compaixão da multidão, porque há já três dias que estão comigo, e não têm o que comer. (Marcos 8:2)

ACEITAR-SE HUMANO É DIFÍCIL. O humano é inconstante, impreciso, indefinido, temporal, finito, indeterminado, singular, complexo, se transforma, é capaz de fazer o bem e fazer o mal, trata-se de um ser de difícil compreensão. Porém, segundo o evangelho de Jesus, quanto mais humano mais divino.

Aceite a sua imperfeição e insuficiência, pois a graça te basta. É a graça que te torna digno, santo, filho, merecedor, capaz, forte e etc. Abandone-se na rica e abundante graça de Deus.

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

(Efésios 2:8-10)

Em amor,

Allan Felipe

Rio de Janeiro, 02 de maio de 2020.

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