Covid-19, Fé, Teologia e Existência

“O que é impossível para os homens é possível para Deus.” (Lucas 18.27)

A intervenção divina é uma exceção à regra naquilo que diz respeito ao campo da possibilidade humana. No entanto, quando trata-se da impossibilidade humana, a especialidade divina entra em ação, tornar o impossível em possível, segundo Sua Soberania.

Em outras palavras, na maioria das vezes em que Deus intervém em nossas vidas é para desfazer a besteira que fizemos e não para lidar com problemas de impossível resolução para os humanos. Em suma, o que é da esfera do possível é minha responsabilidade, o que é da esfera do impossível é da alçada do Altíssimo. Mas, isso não significa que Deus está impedido de agir em alguma das situações.

Temos aqui, do ponto de vista teológico, a mais difícil das equações: equilibrar a soberania divina com a responsabilidade humana.

Diante do cenário atual, é humanamente impossível se blindar contra o vírus, mesmo tomando todos os cuidados e seguindo as recomendações da OMS, que devem ser observados e cumpridos por todos e todas. Estamos falando de um vírus invisível, de dimensões mínimas e de fácil multiplicação. Nesse sentido, muita coisa escapa do nosso controle, somos seres limitados e precisamos urgentemente assumir nossa porção de impotência enquanto sujeitos.

Recorramos ao Salmo a fim de revigorarmos nossas forças e alimentarmos nossas almas famintas por esperança:

“Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.” (Salmos 127.1-2)

Prosseguindo a reflexão. Vivemos dias difíceis, e, infelizmente, temos a tendência de nos desesperar, tal como definiu o importante filósofo dinamarquês, Sören Kierkegaard. O desespero humano, para Kierkegaard, consiste em aferrar-se a um dos polos da síntese e desprezar o seu oposto: finitude x infinitude, eternidade x temporalidade, liberdade x necessidade.

Aplicando a mesma dialética ao atual contexto, corremos o risco de nos desesperar pelo excesso de espiritualidade/esperança e carência de realidade, pelo excesso de misticismo/religiosidade e carência de práxis e pelo excesso de fé/crença no divino/transcendente e carência de responsabilidade humana. Da mesma maneira, o contrário também é desespero: excesso de realidade e carência de espiritualidade/esperança, excesso de práxis e carência de misticismo/religiosidade e excesso de responsabilidade humana e carência de fé/crença no divino/transcendente.

Como psicólogo, costumo dizer que equilíbrio é saúde. Portanto, é preciso encontrar uma terceira via para lidar com essa dinâmica dualista. Com relação à pandemia originada pelo COVID-19, é preciso ter em mente que: a fé não me furta de tomar os devidos cuidados preventivos e nem os cuidados preventivos anula a minha fé. Como disse um colega teólogo, a fé não nos imuniza, mas nos responsabiliza. Há uma dimensão ética em ser cristão, isto implica necessariamente numa vida solidária, de amor, de dedicação e cuidado para com o próximo.

Estamos vivendo um momento no qual a nossa sobrevivência depende da capacidade humana de superar o egoísmo e o individualismo e, assim, colocarmos a espécie humana em outro patamar da existência. Patamar esse, que não nos torna “separados” da natureza e das outras espécies. Esse senso de exclusividade diante do universo precisa dar lugar a um novo paradigma.

Não estamos aqui para depredar, sugar até a última gota de petróleo, devastar, desmatar, poluir, dizimar, extinguir, explorar, dominar iguais, oprimir, mas para cuidar, preservar, amar, respeitar, conviver, aproveitar, usufruir de tudo o que esse planeta pode nos oferecer, entretanto, em harmonia, ou, evidentemente, na busca por harmonia.

Que essa crise mundial nos faça repensar os rumos da humanidade, a maneira como temos vivido e nos relacionado com toda espécie de vida, especialmente a homo sapiens sapiens.

Paz e bem a todos e todas!

Em amor,

Allan Felipe.

Rio, 18/03/2020

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